A China voltou a fazer compras de soja da nova safra americana, e quem planta no Brasil já pode ir pegando a calculadora. Segundo o USDA, foram 132 mil toneladas confirmadas para os chineses, mais 384 mil para "destinos não revelados" que os analistas juram ser também a China. E não é soja qualquer, é a da safra 2026/27, aquela que ainda nem saiu do pé.
A jogada não caiu do céu. Vem da cúpula entre Xi e Trump, em maio, quando a China se comprometeu a importar pelo menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos entre 2026 e 2028. Traduzindo do diplomatês para o bolso, mais navio saindo dos Estados Unidos significa Chicago em alta, e Chicago em alta espreme o prêmio que o porto brasileiro consegue cobrar. Até junho, os americanos já tinham mandado cerca de 12 milhões de toneladas para a China, e a safra nova pode chegar a 25 milhões, "como espera Trump", segundo Ale Delara, da Delara Agronegócios.
Aí entra a parte que merece um pé atrás. Para Ronaldo Fernandes, da Royal Rural, a China anda repetindo que "a soja brasileira está cara" como tática para empurrar o preço do grão para baixo aqui dentro, só que a conta diz o contrário, US$ 530 a tonelada no Brasil contra US$ 545 nos EUA. Ou seja, é menos termômetro de mercado e mais blefe na mesa de negociação. E, no curtíssimo prazo, o susto nem encosta, junho deve exportar 15 milhões de toneladas, sendo 10,7 milhões para a China, e julho já tem 4 milhões programadas.
O repuxo, se vier, é de médio prazo, quando o ciclo se fecha, mais demanda americana, Chicago animado, prêmio brasileiro murchando e o preço lá na ponta sentindo o tranco. Pro produtor, fica o aviso, o que se decide hoje na mesa entre Pequim e Washington é o preço da saca de amanhã.