Todo setor merece um filme bonito sobre si mesmo, e o agro ganhou três:
Kiss the Ground, de 2020, apresentou a tese ao grande público, com o solo vivo puxando carbono da atmosfera como a peça que faltava no quebra-cabeça do clima;
Common Ground, de 2023, desceu do solo para as pessoas e foi atrás de produtores americanos que quebraram ou adoeceram dentro do sistema convencional;
Groundswell agora fecha a trilogia rodando cinco continentes, com narração de Woody Harrelson e Demi Moore, e vem terminar no Cerrado.
Os três estão no Prime Video, e o terceiro foi premiado em Cannes neste ano. Saiu de lá com uma campanha para levar a prática regenerativa a 404 milhões de hectares, perto de 10% da terra agrícola do planeta. Ambição do tamanho da tela.
Mas o problema não é o que o filme mostra, é a conta que ele não faz. No telão, transição regenerativa é lavoura bonita e solo fofo. No talhão, é semente de cobertura comprada que não vira saca, máquina diferente para o manejo novo e produtividade menor nos primeiros anos. O retorno chega, mas chega depois, e ninguém no roteiro respondeu a pergunta de quem banca o intervalo.
Desde 2003 a Nespresso roda um programa que paga ao produtor acima da cotação de mercado quando o lote cumpre os critérios de qualidade e de manejo. A empresa diz já tirar 95% do café brasileiro dela de área regenerativa. Já a soja, milho, cana e boi são vendidos por especificação, não por história, e ninguém paga a mais num contrato porque a lavoura tem palhada. E é exatamente aí, na commodity, que está a área que o filme quer converter.
A pujança da soja ainda aparece como vilã da história, sem que ninguém responda quem alimenta os 10 bilhões de pessoas que o planeta deve ter até 2086. Mas nada disso derruba a parte boa da trilogia, porque solo coberto infiltra mais água, segura melhor o tranco da seca e alivia o custo de insumo com o tempo.
E aí vem a pergunta que ficou fora do roteiro: de qual bolso ela deveria sair, do consumidor, da trading, do banco ou do produtor?